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Double Happiness: a história da DHS, a marca que se confunde com o tênis de mesa chinês

Sem tempo agora? para o TL;DR
Double Happiness: a história da DHS, a marca que se confunde com o tênis de mesa chinês
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Se você joga tênis de mesa, já viu as três letras mil vezes: na bola do treino, na borracha do seu forehand, na mesa colorida da transmissão do Mundial. Pouca gente sabe que DHS quer dizer Double Happiness, “dupla felicidade”, e que o nome nasceu de duas comemorações de 1959, uma delas um título mundial. Muito mesatenista, aliás, chama de double happiness a bola que pega na rede e depois na quina: dupla sorte para quem bate, nenhuma para quem recebe.

Contar a história da DHS é contar a história do tênis de mesa chinês. Desde o primeiro título, as duas andam juntas, num ciclo que se repete por mais de 60 anos: a seleção testa, a fábrica ajusta. Quando a regra muda, os dois se adaptam juntos, e quase sempre saem na frente.

A base deste post é o Guia de Serviço da DHS, o handbook técnico da marca (4ª edição, de 2022, em chinês), que a DHS disponibilizou à 360TT como distribuidora oficial no Brasil. Ele traz uma linha do tempo do esporte e da fábrica. Por ser a versão da marca sobre a própria história, conferi o que deu em outras fontes e aviso quando o dado é só dela.

TL;DR: a bola chegou à China antes da seleção: o esporte desembarcou em Xangai em 1904 e a primeira bola chinesa saiu em 1927 (antes da seleção, a bola). Em 1959, o primeiro título mundial chinês deu o nome à marca, que estreou no Mundial de Pequim, em 1961, o mesmo em que um brasileiro de 15 anos derrubou o campeão. Depois vieram a diplomacia do pingue-pongue, a bola de 40 mm e a Hurricane (o mundo contra a China), a era Ma Long e Paris 2024. No fim, o que essa história ensina a quem joga.

Infográfico ilustrado da trajetória do tênis de mesa e da DHS, em duas partes: das origens a 1959 (jantar inglês, navio em Xangai, fábrica de bolas e o nascimento da marca) e de 1961 a 2024 (estreia no Mundial, diplomacia do pingue-pongue, bola de 40 mm em Sydney e Paris 2024).
A história em uma imagem: da mesa de jantar inglesa às mesas de Paris. Infográfico: 360TT

Antes da seleção, a bola

O tênis de mesa nasceu na Inglaterra, no fim do século XIX, como brincadeira de mesa de jantar: raquetes de pele esticada, bolas de borracha ou cortiça enroladas em lã para não estragar os móveis, uma rede apoiada entre duas cadeiras. Por volta de 1890, o inglês James Gibb adaptou uma bola oca de celuloide, de brinquedo, e o jogo ganhou a bola que conhecemos. Daí o esporte foi para o Japão, onde virou takkyu.

Em 1904, Wang Daowu, dono de uma papelaria em Xangai, trouxe do Japão dez jogos completos e deu ao esporte o nome que pegou: pingpang, pelo som da bola. Curiosamente, no Ocidente esse nome tinha dono: a inglesa Jaques registrou “Ping-Pong” como marca em 1901, e nos Estados Unidos os direitos ficaram com a Parker Brothers (hoje são da Escalade). Foi por isso que as federações adotaram o nome table tennis, tênis de mesa. Na China, pingpang virou simplesmente o nome do esporte. Em 1926 nasceu a ITTF, que organizou em dezembro, em Londres, o primeiro Mundial. E Xangai começou a fabricar: em 1927 saiu a primeira bola feita na China; em 1928 e 1929 surgiram as primeiras oficinas de raquetes (uma delas fazia 2 a 3 mil por ano); em 1937, a bola Lianhuan (“anéis encadeados”) foi a primeira chinesa boa para competição. Em inglês, a própria DHS chama essa bola de Double Circle, e os dois anéis entrelaçados sobrevivem até hoje: são a marca da linha de bolas de treino da DHS, como a Double Circle D40+. Em 1946 foi fundada a fábrica de bolas Hualian.

Caixa antiga azul e bege com o símbolo de dois anéis entrelaçados e os dizeres “Double Circle Table Tennis Balls, Made in Shanghai, China”, com cinco bolas brancas carimbadas na frente, sobre fundo branco.
Bolas Double Circle antigas, feitas em Xangai: os dois anéis da Lianhuan de 1937 ainda no carimbo. Foto: reprodução

Raquete antiga de caneta, de madeira escura gasta, com borracha vermelha de pino.
Raquete chinesa antiga, do tempo das primeiras oficinas de Xangai. Imagem: Handbook DHS

Enquanto isso, o tênis de mesa mundial já tinha dono. O handbook conta essa história em cinco eras, e em cada uma o jogo e o material mudam juntos. De 1926 a 1951, mandou a Europa: 109 dos 117 títulos mundiais, com a empunhadura clássica, jogo de defesa e borracha de pino sem esponja, que dava pouca velocidade e bem pouco efeito; a ideia era errar menos que o adversário. De 1952 a 1959, o Japão virou o jogo duas vezes: trocou a empunhadura clássica pela caneta, para atacar de longe com o forehand, e trouxe a novidade que mudou tudo, a esponja, que deu origem à borracha sanduíche (borracha com esponja), usada até hoje, e multiplicou a velocidade e o efeito.

A China só entrou na ITTF em março de 1953, e no mesmo ano jogou o primeiro Mundial, em Bucareste: ganhou da Áustria e da Suécia, perdeu para a Inglaterra e a Hungria. Entre 1956 e 1958, a Hualian e outras três fábricas de Xangai viraram sociedades com o Estado e formaram a base do que seria a DHS. Em 1957, a Hualian fez a primeira bola chinesa de costura selada. Faltava só o nome.

Foto em preto e branco de operárias numa linha de embalagem, com caixas de bolas de tênis de mesa empilhadas sobre as mesas.
Embalagem de bolas numa fábrica de Xangai, nos primeiros anos da DHS. Imagem: Handbook DHS

1959: duas alegrias e um nome

Em 1959, em Dortmund, na Alemanha, Rong Guotuan ganhou o simples masculino do 25º Mundial e se tornou o primeiro campeão mundial da China, em qualquer esporte. No mesmo ano, a República Popular completava dez anos. Duas alegrias. Segundo a DHS e a imprensa chinesa, o primeiro-ministro Zhou Enlai batizou a bola feita em Xangai de Hong Shuang Xi, “dupla felicidade vermelha”, o mesmo nome do símbolo 囍 que os chineses usam em casamentos. Em inglês, Double Happiness. Em sigla, DHS.

Bola de tênis de mesa branca com o carimbo vermelho circular da DHS: o símbolo 囍 no centro e os dizeres em chinês ao redor.
A bola com o carimbo da “dupla felicidade”. Imagem: Handbook DHS

O nome tinha um prazo. A China ia sediar o Mundial de 1961 e queria jogar com material próprio, então o país montou um mutirão técnico com fábricas e institutos de pesquisa. Em setembro de 1959, bola e mesa novas foram testadas por jogadores da seleção, entre eles Xu Yinsheng, e aprovadas. Do mesmo esforço saiu a primeira raquete chinesa com borracha lisa e esponja. Em 1960, a bola recebeu a aprovação da ITTF, a primeira de um produto esportivo chinês. Foi a primeira volta do ciclo: a seleção testou, a fábrica ajustou.

Mesa de tênis de mesa antiga, de madeira escura, apoiada em oito pernas torneadas.
Uma mesa antiga do acervo da DHS. Imagem: Handbook DHS

1961: Pequim, a estreia em casa

No 26º Mundial, em Pequim, a bola, a mesa e o placar eram DHS: foi a primeira vez que material esportivo feito na China apareceu num campeonato mundial. E a China ganhou em casa as equipes masculinas, o simples masculino e o simples feminino. Para o handbook, é ali que o centro do tênis de mesa passa do Japão para a China, com o ataque rápido perto da mesa, e o esporte vira “esporte nacional”.

Foto em preto e branco de um ginásio lotado em Pequim, com uma faixa em chinês no alto e mesas de jogo na quadra.
O 26º Mundial, em Pequim, 1961: a estreia do material DHS. Imagem: Handbook DHS

🇧🇷 Biriba, 15 anos, contra o campeão do mundo

Naquele mesmo Mundial, em abril de 1961, um garoto de São Paulo escreveu o seu nome na história. Ubiraci Rodrigues da Costa, o Biriba, com 15 anos, venceu Rong Guotuan, o campeão de 1959, cujo título tinha dado nome à DHS. Foi na 3ª rodada do simples masculino, diante de uns 15 mil torcedores chineses, e ele chegou às oitavas de final. Ganhou um telegrama do presidente Jânio Quadros, e a campanha só foi igualada por Claudio Kano em 1987 e superada por Hugo Calderano em 2021.

Não foi um raio em céu azul. Aos 11 anos, Biriba já era campeão sul-americano entre os adultos; aos 13, ganhou em amistosos no Ibirapuera de dois campeões mundiais japoneses, Ichiro Ogimura e Toshiaki Tanaka, a escola que dominava o esporte. Em 18 de novembro de 1958, A Gazeta Esportiva o pôs na capa ao lado de Pelé e Maria Esther Bueno: “o triângulo de ouro dos esportes brasileiros”.

Foto em preto e branco: Pelé, de terno, segura uma raquete de tênis de mesa; ao lado, Biriba, menino, segura uma raquete de tênis, com uma bola de futebol aos pés; à direita, Maria Esther Bueno sorri.
Biriba, aos 13 anos, com Pelé e Maria Esther Bueno na sede de A Gazeta Esportiva, em 18 de novembro de 1958, cada um com o instrumento do outro. Foto: A Gazeta Esportiva

Biriba morreu em São Paulo, em 25 de setembro de 2025, aos 80 anos. Fica aqui a homenagem da 360TT ao primeiro grande nome do tênis de mesa brasileiro.

O resto da década consolidou a dupla. Em 1963, num teste da ITTF, a bola DHS empatou em primeiro lugar com a inglesa Halex. Em 1965, no Mundial de Liubliana, todos os jogadores chineses usaram raquetes DHS (a série “65”), a China levou 5 dos 7 títulos e as chinesas derrubaram o Japão, que dominava o feminino havia oito anos.

A bola pequena moveu a bola grande

A China ficou seis anos fora dos Mundiais e voltou em 1971, em Nagoya, no Japão. Ali aconteceu o episódio mais famoso da história do esporte. O americano Glenn Cowan, de 19 anos, entrou no ônibus da seleção chinesa (por engano, segundo a versão mais conhecida). Zhuang Zedong, tricampeão mundial, foi falar com ele e lhe deu uma pintura em seda das montanhas Huangshan; Cowan retribuiu com uma camiseta com o símbolo da paz. As fotos rodaram o mundo, e dias depois a equipe americana foi convidada a jogar na China, um dos primeiros grupos de americanos a entrar no país desde 1949. Era a “diplomacia do pingue-pongue”, que reaproximou China e Estados Unidos depois de 22 anos de portas fechadas e abriu caminho para a visita de Richard Nixon a Pequim, em fevereiro de 1972. “A bola pequena moveu a bola grande”, como dizem os chineses.

Quem quiser os bastidores tem um ótimo livro: Ping-Pong Diplomacy: The Secret History Behind the Game That Changed the World, do jornalista americano Nicholas Griffin (Scribner, 2014). Ele conta como o tênis de mesa foi usado como instrumento político desde os anos 1950 e duvida até do “acaso” de Nagoya: para ele, os chineses já esperavam Cowan.

Capa do livro Ping-Pong Diplomacy, de Nicholas Griffin: no alto, foto em preto e branco de Mao Tsé-tung e Richard Nixon apertando as mãos; embaixo, o título entre duas raquetes, uma azul e uma vermelha.
Ping-Pong Diplomacy, de Nicholas Griffin (Scribner, 2014). Imagem: reprodução da capa

Com o esporte de volta à vida no país, a produção da DHS voltou a crescer, e em 1972 a bola dela teve a maior nota geral num teste da ITTF.

Os anos 1970, porém, foram da volta da Europa. Os europeus juntaram o ataque rápido chinês com o topspin japonês e encostaram nos asiáticos. A resposta chinesa veio em 1981: depois de dois anos de reconstrução, a seleção ganhou em Novi Sad os 7 títulos do Mundial, a primeira vez que um país levou tudo em 55 anos de campeonato.

No começo dos anos 1980, a DHS também saiu para o mundo, com a linha PF4 (bola, raquete e borracha), a primeira marca chinesa a abrir mercado lá fora. A PF4 ainda existe, hoje como uma família de borrachas de topsheet pegajoso.

Embalagem antiga da borracha PF4 Super Rubber Speciality, amarela, com faixas azul, laranja e vermelha e uma bola desenhada.
A embalagem antiga da PF4. Imagem: Handbook DHS

DHS PF4A lendária borracha que levou a DHS para o mundo, atualizada para a bola 40+: o efeito de sempre, com mais velocidade no ataque. Visitar a loja →

Em 1988, em Seul, o tênis de mesa entrou na Olimpíada. Em 1995, a DHS unificou a marca numa empresa só, e a bola dela foi a oficial do Mundial de Tianjin, onde a China, de novo, levou os 7 títulos. Nasce aí o que os chineses chamam de “o mundo contra a China”.

Cerimônia num palco com faixa vermelha em chinês, com dirigentes enfileirados atrás de uma mesa decorada com flores e uma grande bola.
Apresentação da bola PF4 como bola oficial do 43º Mundial, em Tianjin, 1995. Imagem: Handbook DHS

O mundo contra a China

Com a China ganhando tudo, a ITTF passou a mexer nas regras para deixar o jogo mais disputado e mais fácil de ver na TV. A DHS estava dentro dessas mudanças. Em 1996, segundo o handbook, a ITTF encomendou a ela o desenvolvimento da bola maior. A Olimpíada de Sydney, em 2000, foi a última grande competição com a bola de 38 mm, e uma bola DHS: a primeira vez que um equipamento chinês foi o oficial de uma Olimpíada. No mesmo ano, a Copa do Mundo de Yangzhou estreou a bola de 40 mm, também DHS. Contei os detalhes dessa troca no guia das bolas, da 38 mm à 40+. Vieram em seguida as partidas de 11 pontos (2001) e o saque sem esconder a bola (2002).

Bola branca DHS com a marca dos Jogos de Sydney 2000 em rosa, sobre uma mesa azul, perto da rede.
A bola de Sydney 2000, a última grande competição com a bola de 38 mm. Imagem: Handbook DHS

Nas borrachas, a virada tinha começado em 1998, quando a DHS lançou a borracha já colada na esponja de fábrica. Até então, jogador chinês comprava a cobertura e a esponja separadas. Foi assim que nasceram a G888 (usada por Wang Liqin e Yan Sen ainda na bola pequena) e a família Kuangbiao, que o mundo conhece como Hurricane. Com a bola de 40 mm, a velocidade virou prioridade, e a Hurricane 2 e a Hurricane 3 foram desenhadas para ela.

Embalagem da borracha G888, com o número 888 em prata sobre um redemoinho vermelho, azul e amarelo.
A G888, de 1998: a primeira borracha da DHS já colada na esponja. Imagem: Handbook DHS

DHS G888A primeira borracha da DHS já colada na esponja continua em linha: topsheet muito pegajoso, para efeito máximo no ataque de meia distância. Visitar a loja →

Nas madeiras, a história é de volta por cima. Desde os anos 1980, a seleção chinesa usava quase só madeiras estrangeiras. Em 2003, a DHS estudou o jogo de oito jogadores da seleção e lançou madeiras Hurricane com o nome de cada um. Em 2005, no Mundial de Xangai, a Hurricane Wang ajudou Wang Liqin a ganhar o simples e as duplas mistas. Em 2006, a Skyline 2 e a Skyline 3, feitas para Ma Lin e Wang Hao, completavam o time, e 70% dos forehands da seleção já eram de borracha DHS.

Wang Liqin, de camisa vermelha e amarela da seleção chinesa, comemora um ponto com o punho fechado e a raquete na outra mão.
Wang Liqin no Mundial de Xangai, em 2005. Imagem: Handbook DHS

Em 2008, a DHS foi fornecedora da Olimpíada de Pequim, e a China ganhou as equipes e os três primeiros lugares nos dois simples.

Jogadora chinesa de camisa vermelha devolve a bola numa mesa olímpica de base iluminada, com os anéis olímpicos ao fundo, diante de fotógrafos.
A mesa dos Jogos de Pequim 2008. Imagem: Handbook DHS

Logo depois, em 1º de setembro de 2008, entrou em vigor a proibição da cola rápida com solvente (contei essa história em Por que sua cola hoje é à base de água?). É o melhor exemplo do ciclo: a DHS testou com a seleção borrachas menos pegajosas e com pinos mais grossos, e a resposta dos jogadores foi manter a borracha pegajosa. A fábrica então mexeu na esponja. Nasceu a linha NEO, com uma esponja tratada de fábrica para ficar “esticada”, imitando o efeito que a cola dava.

DHS Hurricane 3 NEOA borracha que acompanhou a seleção chinesa da bola de 40 mm até hoje, com esponja NEO tratada de fábrica. Visitar a loja →

A era Ma Long

Ma Long assinou com a DHS em 2008, e a história das madeiras dele mostra o ciclo em detalhe. Segundo o handbook:

  • 2008: a primeira Hurricane Long, feita sobre a madeira que ele já usava;
  • 2011: ele passa para uma madeira de sete lâminas, só de madeira, e emenda 51 vitórias seguidas a partir do Aberto de Suzhou. A DHS lança a Hurricane Long 2;
  • 2012: a Hurricane Long 3, com a cola interna melhorada a pedido dele, e o cabo azul com a meia-lua amarela que virou marca registrada;
  • 2013: a Hurricane Long 5, com camadas de carbono e aramida por dentro, com que ganha os Jogos Nacionais;
  • 2016: depois do ouro no Rio, a Long 5 ganha uma superfície de batida menor;
  • 2021: a edição Gold Slam, para comemorar o feito de Tóquio.

As cinco madeiras Hurricane Long do Ma Long lado a lado, com o ano embaixo de cada uma: 2008, Hurricane Long; 2011, Hurricane Long 2; 2012, Hurricane Long 3; 2013, Hurricane Long 5; 2021, Long 5 Golden Slam.
A evolução das madeiras do Ma Long. Imagens: Handbook DHS; montagem: 360TT

Ma Long faz um coração com as mãos ao lado da madeira Hurricane Long 5 Golden Slam, com os dizeres “Golden Slam Hurricane Long 5”.
Ma Long e a Hurricane Long 5 Golden Slam. Imagem: Handbook DHS

Contei essa evolução, e o que ela ensina sobre trocar de madeira, no post A Lição de Ma Long. Em 2015, com a Long 5 e Hurricane 3 dos dois lados, ele ganhou o Mundial, a Copa do Mundo e o Grand Final. Em 2021, em Tóquio, com a mesma combinação, completou pela segunda vez Olimpíada, Mundial e Copa do Mundo no simples, o “golden grand slam”, e foi o primeiro a conseguir.

Enquanto isso, a bola mudou de novo. Em 2011 a DHS anunciou uma bola de material novo, e a ITTF decidiu aposentar o celuloide, usado por mais de cem anos. A troca valeu a partir de 1º de julho de 2014. Além de mudar o jogo, ela resolveu um problema prático: o celuloide pega fogo fácil e era transportado como carga perigosa; a bola de plástico viaja de avião sem restrição. A primeira bola nova da DHS foi a oficial dos Mundiais e da Olimpíada do Rio; em 2017 veio a de plástico ABS, que deu origem à DJ40+, a bola de Tóquio.

Os números que a DHS publica sobre a seleção chinesa e o mercado mostram o tamanho disso. São dados da própria marca, de 2022, mas impressionam:

97%dos forehands da seleção chinesa com borracha DHS
46%das madeiras da seleção são DHS
50%+das bolas de tênis de mesa do mundo saem da DHS
70%das grandes competições usam a bola 3 estrelas DHS

O handbook também mostra um lado menos conhecido. Em 2010, os quatro primeiros do simples masculino do Mundial jogavam com material DHS. Em 2017, a marca lançou a Gold Arc 5 e a Gold Arc 8, borrachas de topsheet não pegajoso, no estilo europeu, feitas na Alemanha pela ESN e testadas por Wang Liqin e Ma Long. E, em 2022, a Hurricane 9 em cores, depois que a ITTF liberou a borracha colorida. No backhand, a borracha DHS também ganhou espaço com a bola 40+: 32% dos backhands da seleção em 2022.

De Paris 2024 até hoje

O handbook é de 2022, então daqui para a frente as fontes são a ITTF e a imprensa especializada. Em Paris 2024, a DHS foi a fornecedora oficial das mesas e redes do torneio olímpico e paralímpico, com uma mesa feita para os Jogos a partir da Rainbow II. Foi a sétima Olimpíada seguida com material DHS, de Sydney a Paris.

Em abril de 2025, a ITTF renovou com a DHS como fornecedora oficial das mesas das finais dos Mundiais de 2025 a 2028, a começar por Doha, com a mesa Rainbow. Foi nela que Hugo Calderano chegou à final do Mundial, a melhor campanha de um brasileiro na história.

A mesa Rainbow da DHS, iluminada de vermelho por dentro dos arcos, na arena vazia do Mundial de Doha 2025, com o painel do campeonato ao fundo.
A mesa Rainbow no Mundial de Doha 2025, antes do início dos jogos. Foto: ITTF

🏓 Curiosidades do handbook

  • A bola de 44 mm: em 2003, a DHS lançou uma bola maior, mais lenta e com menos efeito, para lazer e iniciação. Hoje ela é usada na educação física das escolas chinesas.
  • O medidor da raquete: o aparelho que mede a espessura da borracha no controle de raquetes das competições internacionais é fornecido pela DHS.
  • Mesa de museu: a mesa Rainbow dos Jogos de Londres 2012, com os arcos em forma de anéis olímpicos, foi guardada para sempre pelo Comitê Olímpico Internacional, na sede da Suíça.
  • Mesa de Pequim: a mesa da Olimpíada de 2008 foi desenhada a partir do caractere chinês de Pequim, 京.
  • Bola de duas cores: em 2014, a DHS e a federação chinesa testaram uma bola de duas cores, que deixa o efeito mais visível na TV e para quem recebe.
  • As taças do Mundial: cada um dos 7 títulos tem uma taça com nome próprio, como a Swaythling (equipes masculinas) e a Corbillon (equipes femininas). São de prata e passam de campeão para campeão: quem ganha só grava o nome.

Mesa de tênis de mesa dos Jogos de Londres 2012, com a base formada por arcos iluminados no desenho dos anéis olímpicos.
A mesa dos Jogos de Londres 2012, hoje no acervo do COI. Imagem: Handbook DHS

Caixa amarela de bolas DHS “Bi Colour”, de duas cores, com dois jogadores da seleção chinesa na embalagem.
A bola de duas cores, de 2014. Imagem: Handbook DHS

Bola DHS D40+ ABS Bi Colour (caixa com 10)A versão de duas cores da D40+: o efeito fica visível girando, ótima para treinar a leitura de efeito. Visitar a loja →

Folheie o handbook

Para quem quiser ver o original, aqui vão algumas páginas do handbook da DHS: a capa, as nove páginas da linha do tempo que serviram de base para este post, a página das madeiras do Ma Long e a da história das bolas. Clique em qualquer uma para ampliar.

Página do Handbook DHS: CapaCapa
Página do Handbook DHS: 1890–19371890–1937
Página do Handbook DHS: 1946–19631946–1963
Página do Handbook DHS: 1965–19891965–1989
Página do Handbook DHS: 1995–20001995–2000
Página do Handbook DHS: 2000–20052000–2005
Página do Handbook DHS: 2007–20092007–2009
Página do Handbook DHS: 2010–20142010–2014
Página do Handbook DHS: 2014–20202014–2020
Página do Handbook DHS: 2021–20222021–2022
Página do Handbook DHS: Madeiras do Ma LongMadeiras do Ma Long
Página do Handbook DHS: História das bolasHistória das bolas
Páginas do Handbook DHS (Guia de Serviço, 4ª edição, 2022, em chinês). Imagens: Handbook DHS

O que essa história ensina a quem joga

🤓 Visão técnica 360TT

Lendo a linha do tempo inteira, uma coisa salta aos olhos: o material muda porque a regra muda. Bola de 40 mm, fim da cola rápida, bola de plástico: cada mudança da ITTF obrigou os fabricantes a refazer borracha, esponja e madeira. A DHS teve a vantagem de estar dentro dessas decisões e de testar tudo com a seleção mais forte do mundo antes de chegar à loja.

Por isso a borracha chinesa é do jeito que é. A Hurricane, pegajosa e dura, nasceu para o estilo chinês, que gera velocidade e efeito com a técnica: é ela que põe energia de verdade na esponja dura. Com pouca energia, a borracha parece lenta; com técnica, vira praticamente duas borrachas em uma, com controle nas bolas passivas pelo grude do topsheet e potência pela esponja dura. Expliquei isso em detalhe em Enfim, qual borracha usar? O método da hipótese nula, onde também conto como o resto do mundo adotou as borrachas tacky e híbridas, puxado pela alemã ESN, a mesma que faz a Gold Arc da DHS.

A outra lição é mais simples: o que a seleção chinesa usa está na loja, com diferença de controle de qualidade entre as versões (expliquei no guia da Hurricane 3). Desde 2023, a 360TT é distribuidora oficial da DHS no Brasil, e foi como distribuidora que recebemos da DHS o handbook que serviu de base para este post.

Agora quero ouvir você: qual foi o seu primeiro material DHS? Uma PF4, uma Hurricane, uma caixa de bolas do clube? Conhecia essa história? Conta aqui nos comentários.

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