Enfim, qual borracha usar? O método da hipótese nula

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Escrevi a primeira versão deste artigo há alguns anos. Mandei pra uns grupos de WhatsApp, liberei pra quem quisesse compartilhar, e ele correu o Brasil. Um dia me pediram pra publicá-lo num site oficial do tênis de mesa brasileiro, desde que eu fizesse antes um infográfico resumindo tudo, porque “é muito longo, ninguém vai ler”. Não fiz o infográfico. Se ninguém ia ler, não fazia sentido publicar.
De lá pra cá, uma coisa que eu defendia em 2022, quando quase ninguém falava disso — que as borrachas tacky e híbridas iam mudar o jogo —, virou o que se vê em qualquer transmissão do circuito mundial. Foi o empurrão que faltava pra reescrever o texto, agora com números e com um caso real de hipótese testada em escala mundial. Ele continua longo. Mas é o primeiro post deste blog novo, e acho justo começar pelo assunto que mais gera dúvida, gasto e arrependimento no tênis de mesa: enfim, qual borracha usar?
A resposta curta: provavelmente não a que você está pensando em comprar. A longa vem aí.
TL;DR: “testei e gostei” é um ensaio clínico sem controle: o efeito novidade engana, e o certo é partir da hipótese nula — a borracha nova não é melhor que a sua até que se prove o contrário. No próprio catálogo da Butterfly, efeito e arco seguem a dureza da esponja quase em linha reta (correlação de 0,97 e 0,98). Por isso, escolha pelo método: ângulo de saída, dureza, espessura, custo por mês de uso e o seu momento técnico. As tacky e híbridas são o caso real de uma hipótese testada pelo mundo todo. E, escolhida a borracha, pare de trocar: são 60 a 90 dias de treino pra ela render.
Nota
Não pretendo julgar quem gosta de testar material. Eu mesmo, quando jogava, fazia as borrachas durarem até acabar, e ainda usava mais uns dias. Hoje, que posso, também compro alguma coisa por puro gosto ou curiosidade. Mas o escopo aqui é outro: o que contribui ou não pra você ganhar mais pontos e mais jogos. E isso não depende da nossa curiosidade.
Há anos acompanho, com certa inquietação, opiniões e indicações sobre material. Muitas vêm de gente inteligente e honesta, algumas que conheço bem. O que me inquieta não é a opinião em si: é como a racionalidade cai fácil diante de um argumento raso, sem base técnica ou lógica, beirando o misticismo. Sem um mínimo de método, viramos reféns do “testei e gostei”, da moda, da indicação do influencer da vez ou da borracha que o fulano da seleção usa.
O ensaio clínico da sua raquete
Comece por uma hipótese: “a borracha X, independentemente de marca, preço, peso ou dureza, é a melhor pro atleta Y ganhar mais jogos”. Atenção: não é acertar mais drives no treino. É ganhar mais jogos.
Essa hipótese nasce com baixíssima probabilidade de acerto. As combinações óbvias, tipo “borracha famosa usada por jogador famoso”, já foram colhidas há tempos: são os low-hanging fruit, as frutas mais baixas da árvore. O que sobra está no alto, mais caro e mais trabalhoso de alcançar.
E a árvore é enorme. Em outubro de 2019, a ITTF comemorou um recorde: mais de 1.600 borrachas na lista de autorizadas (LARC). Em 21 de setembro de 2026, conferi a lista oficial: são 1.716 borrachas homologadas, de 150 marcas. Nesse meio-tempo, muitas saíram (homologação vence, fabricante descontinua modelo), mas entraram ainda mais. O funil não para de crescer.
Cada borracha ainda se comporta de um jeito em cada madeira. Simplificando bastante, com só três madeiras da mesma marca (defensiva, allround e ofensiva), já são 5.148 combinações: 0,02% de chance de acertar por sorteio. E a conta é generosa, porque considera uma borracha só por raquete, quando forehand e backhand costumam levar borrachas diferentes.
Guarde esse número, 0,02%. Ele vai aparecer de novo num lugar bem diferente.
🔎 Desafio da capa
Aliás, ele já apareceu uma vez: a imagem de capa deste post tem 5.148 raquetes, uma para cada combinação, e só uma é laranja. Passou batido? Volte lá em cima e procure com calma. Achou? Pois é: no sorteio, essa é a sua chance de acertar.
Fui pesquisar numa área que não é a minha, pra fazer um paralelo. Antes de um remédio chegar à farmácia, ele passa por um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Os pacientes são sorteados em dois grupos: um recebe o remédio, o outro, uma pílula sem princípio ativo nenhum (o placebo). “Duplo-cego” quer dizer que nem o paciente nem o médico que avalia sabem quem está em qual grupo até o fim do estudo.
Tanto cuidado existe por causa de um fenômeno real e bem documentado: o efeito placebo. Uma parcela relevante de quem toma a pílula de açúcar, achando que é remédio, relata melhora, pela expectativa, pela atenção redobrada, pelo ritual de “estar sendo tratado”. É um efeito forte o bastante pra contaminar qualquer avaliação feita sem controle.
Por isso, a hipótese de partida de todo ensaio clínico, a hipótese nula, não é “o remédio funciona”. É o contrário: “este tratamento não é melhor que o placebo”. Roda-se o estudo, comparam-se os grupos e faz-se a pergunta: se o remédio não fizesse nada, qual seria a chance de ver uma diferença desse tamanho ou maior só por acaso? Se essa chance fica abaixo de 5% — o famoso “p < 0,05” que aparece em qualquer estudo sério —, a hipótese nula é rejeitada. E, mesmo assim, as agências reguladoras costumam exigir mais de um estudo antes de aprovar qualquer coisa.
O funil é implacável. A estimativa mais citada na indústria farmacêutica fala em 1 medicamento aprovado para cada 5.000 a 10.000 compostos examinados na fase de descoberta. No melhor cenário, 1 em 5.000: 0,02%. E, dos que chegam aos testes em humanos, menos de 1 em cada 10 é aprovado (7,9%, segundo o levantamento mais recente da BIO, a associação da indústria de biotecnologia dos EUA, sobre os anos de 2011 a 2020).
Reparou? 0,02% é praticamente a mesma chance de acertar, no sorteio, a combinação de borracha e madeira. Coincidência numérica, claro. Mas a lógica é a mesma: quando o espaço de busca é enorme, o palpite quase sempre erra.

Agora, a sua realidade. Você compra uma borracha nova, treina duas ou três sessões, gosta e conclui: “essa é a minha”. Estatisticamente, você acabou de rodar um ensaio clínico com um único paciente, sem grupo de controle, sem cegamento e com um viés de expectativa enorme. Você sabia que era novidade, prestou mais atenção nos fundamentos, treinou mais motivado, já tinha pagado caro (e ninguém gosta de admitir que gastou mal) e ainda estava embalado pelo marketing do fabricante ou pelo hype das redes sociais. É o efeito placebo, aplicado à raquete.
E tem mais um ingrediente, talvez o mais traiçoeiro: quase ninguém troca de borracha numa fase boa. A gente troca depois de uma sequência ruim, e sequência ruim passa sozinha, com ou sem borracha nova. Em estatística, isso se chama regressão à média. Na mesa, vira “a borracha nova resolveu”.
“Testei e gostei” não é evidência de que a borracha é melhor. É exatamente o que um ensaio clínico existe pra filtrar.
Por isso, a postura correta é manter a hipótese nula por padrão: a borracha nova não é melhor que a sua até que se prove o contrário, com tempo suficiente pra separar o efeito verdadeiro do efeito novidade. Na prática, esse tempo gira em torno de 60 a 90 dias de treino. Não por pessimismo. Por método.
Vale um detalhe que faz toda a diferença: em estatística, a hipótese nula nunca é “provada”. No máximo, um estudo deixa de rejeitá-la. Ninguém prova que a “borracha X não funciona”; o que existe é ausência de evidência de que funcione, o que é bem diferente. Por isso o ônus da prova é sempre de quem afirma que funciona, nunca o contrário.
Aí você começa a entender por que existem tantos modelos de borracha e tanto marketing em volta deles. E por que dá tanta vontade de usar a borracha do seu jogador favorito.
O próximo Waldner e o cemitério silencioso
Seu primo de 10 anos joga muito acima dos colegas de treino e é sempre elogiado pelo treinador. Ele pode ser o próximo Waldner? Pode. Provável, não é: há milhares de meninos assim pelo mundo, e a maioria jamais será profissional. Quando um deles finalmente chega ao top 20, o treinador diz que “sempre soube”. É o viés retrospectivo: depois que o resultado aparece, a memória reescreve o passado e tudo parece ter sido previsível, enquanto centenas de outros treinadores pensavam o mesmo dos seus pupilos. Pra um observador neutro, lá no começo, o lógico era a hipótese nula: aquele menino provavelmente vai ser motorista, advogado, dentista, e a maioria dos talentos promissores fica só nisso, promissora. Quem vende ou fabrica não deveria se apaixonar pela própria criação, que é exatamente o que a mãe faz quando jura que o filho é o próximo Waldner.
Com a borracha do campeão acontece igual: você só enxerga quem deu certo. No mundo dos negócios se diz que o cemitério é silencioso: as empresas que quebraram não dão palestra. Nassim Taleb chama isso de evidência silenciosa. Não existe lista dos milhares que usaram a mesma borracha e não chegaram a lugar nenhum, e ninguém vê os anos de treino que fizeram aquela borracha funcionar na mão do campeão.
E tem o caminho inverso. Todo mundo conhece o atleta que, quando perde, encontra o culpado: o material, a iluminação, a bola, o piso, o ar-condicionado. O filósofo Karl Popper tinha um nome para isso: hipótese ad hoc, uma explicação inventada depois do fato, só para salvar uma crença que a realidade estava derrubando. Com borracha, ela soa assim: “a borracha é ótima, eu é que não estava num bom dia”, “ela só rende com booster”, “não combinou com a minha madeira”. Cada uma dessas frases protege uma crença em vez de testá-la.
O antídoto existe desde a Revolução Científica e o Iluminismo, que nos tiraram das explicações mágicas e da autoridade da tradição. O seu smartphone existe por causa da química, não da alquimia: ninguém chegou à bateria de lítio misturando substâncias ao acaso e inventando desculpas para cada mistura que dava errado. Mas, em matéria de material, ainda somos muito medievais. O método é claro: parta do princípio de que não funciona, deixe o ônus da prova com quem afirma que funciona e não invente desculpas quando a hipótese nula vencer.

O que o próprio catálogo revela
Entre borrachas da mesma faixa de dureza, a maior parte das diferenças que o marketing anuncia é apelo comercial. Infelizmente. Ou felizmente! E a prova vem do lugar mais improvável: os números do próprio fabricante.
Antes de seguir, um esclarecimento: o que vem a seguir não é uma crítica à Butterfly. Muito pelo contrário: são produtos incríveis, e eu sempre digo que a Dignics 09C é a melhor borracha da Butterfly de todos os tempos. Uso os números dela justamente porque o catálogo traz índices de uma linha inteira, medidos do mesmo jeito, e isso permite fazer a conta.
E um aviso técnico. A Butterfly não divulga “controle” como métrica. Divulga Velocidade, Efeito e Arco, todos índices relativos, medidos em testes próprios (os números aqui são do catálogo 2026). O Arco, pela definição da própria Butterfly, mede quão fácil a borracha produz uma trajetória alta no topspin. Ou seja, mistura o ângulo de saída da bola com o efeito do spin sobre a curva. Falo mais disso adiante; aqui, mantenho o nome da tabela.

Cruzei os três índices de 16 borrachas da geração High Tension da Butterfly: Tenergy, Dignics, Zyre, Glayzer e Rozena. Ficaram de fora as anteriores a essa tecnologia (Sriver, Sriver EL, Flextra e Tackiness Chop), a Roundell, bem abaixo da linha Tenergy em desempenho e em uso, e a família Tenergy 25, que praticamente não circula no Brasil.
O resultado: efeito e arco seguem a dureza da esponja numa correlação de 0,97 e 0,98, respectivamente. Quase uma reta. A velocidade, ao contrário, não acompanha nada: fica entre 75 e 90 em todas.
E o catálogo traz, de graça, um teste de laboratório. A Tenergy 05 Hard é, pelo texto da própria Butterfly, a Tenergy 05 com a esponja mais dura (de 36° para 43°). O efeito sobe 26%, o arco sobe 16%, e a velocidade não se mexe (83 e 82). Só mudou a dureza, e o desempenho saltou do jeito que, em tese, só deveria saltar com a troca de linha inteira. A Tenergy 05 Hard empata no efeito com a Dignics 09C, que custa um terço a mais, e chega perto até da Zyre 03, a mais cara de todas, lançada anos depois. O nome muda, o preço muda, a esponja fica mais dura, e o resultado acompanha a dureza, não o nome da tecnologia.
Quanto do “salto de geração” é dureza reembalada?
Há uma exceção que confirma a regra em vez de quebrá-la: as duas borrachas mais lentas do grupo não são as mais macias. São as únicas híbridas do catálogo, Glayzer 09C (velocidade 75) e Dignics 09C (79), ambas com topsheet tacky. E o catálogo traz um segundo teste, que parece de graça, mas tem uma pegadinha: a Dignics 09C e a Zyre 03 usam a mesma esponja, a Spring Sponge X de 44°. A tacky sai com velocidade 79; a não tacky, com 88. Só que o topsheet não é a única diferença: a Zyre 03 tem topsheet mais fino e, pra compensar, esponja mais grossa (2,5 ou 2,7 mm, contra 1,9 ou 2,1 mm da Dignics 09C). Parte dessa velocidade é grude a menos; parte é esponja a mais. Ali a dureza não age sozinha: o grude segura a bola por mais tempo no contato, rouba velocidade e devolve trajetória. Não por acaso, as duas híbridas estão entre as de maior arco do grupo (95 e 96). A Butterfly não diz como mede a velocidade, mas o número é o que se espera de um teste com pouca energia, em que a esponja dura nem chega a ser ativada. É a mesma “lentidão” que muita gente sente quando experimenta uma chinesa ou uma híbrida, e que some quando a técnica põe energia de verdade no golpe.
E aqui entra uma variável que quase nenhum fabricante explica: a espessura da esponja. Quando o catálogo diz que a borracha X tem velocidade Y, ele não diz em qual espessura mediu, e o mais provável é que seja na mais grossa da linha. Nas esponjas comuns, a regra é simples: quanto mais grossa, mais rápida. A Zyre 03 ilustra isso: ela não é mais rápida que as Dignics por ter uma esponja de outra tecnologia, e sim por ter mais da mesma esponja. A relação só se inverte nas esponjas de absorção, feitas pra amortecer a bola, como as das anti-spin Blackout, da Sauer & Tröger, e A-B-S 3 Pro, da Dr. Neubauer: nelas, quanto mais grossa a esponja, mais ela absorve, e mais lenta fica a borracha.
E, nas híbridas, a história fica mais interessante que um número de catálogo: o ângulo de saída muda com o golpe. Contato com predominância de topsheet (mais grude, mais tempo de bola na borracha) produz um ângulo de saída alto. Contato com predominância de esponja (toque mais seco, com menos grude entrando em ação) produz uma trajetória bem mais reta. É a mesma borracha com dois comportamentos, conforme a execução: o “2 em 1” de que falo mais adiante, agora na trajetória.
A dureza da esponja, aliás, é o exemplo mais gritante de como cada fabricante cria a própria régua. Dureza de borracha se mede com durômetro, nas escalas Shore: dentro da mesma escala, quanto maior o número, mais dura. Só que existem escalas Shore diferentes entre si, sem conversão simples, e boa parte dos fabricantes nem usa uma escala padronizada pra valer. Os “graus” da embalagem costumam ser uma régua interna da marca. Uma “40° DHS” e uma “40° ESN” não representam, necessariamente, a mesma dureza física. O gráfico acima só funciona porque compara borrachas de uma marca só, na mesma régua.
Outro assunto que virou modismo é o tal arco da bola, pouco compreendido e “vendido” de forma estranha. O arco é a curva que a bola desenha no ar, e quem desenha essa curva é a física: o ângulo e a velocidade com que a bola sai, a gravidade puxando pra baixo e o spin. No topspin, o efeito Magnus empurra a bola pra baixo e fecha a curva. A borracha entra de duas formas: no ângulo de saída (o Throw Angle, que depende da dureza da esponja, da aderência do topsheet e do desenho dos pinos) e em quanto spin ela permite gerar. Mas quem gera o spin é a sua técnica. Sem spin suficiente, a bola sai alta, faz uma parábola longa e aberta, e passa da mesa. Throw Angle não é arco: é só o ponto de partida dele.

Sobre controle, que considero subjetivo: se a velocidade das borrachas fosse sempre linear, controle seria só função de velocidade. Não é. Borrachas macias reagem mais com pouca energia aplicada e dão a falsa sensação de serem rápidas. Borrachas duras (como as chinesas ou a própria Tenergy 05 Hard) são mais diretas, e, se você não consegue aplicar energia suficiente pra ativar a esponja, vai ter a falsa sensação de que são mais lentas que as macias. Borrachas de topsheet tacky com esponja dura, aliás, dão bem mais sensação de controle em bolas passivas (saque, recepção, cozinhada, bloqueio) e são bem rápidas em ataques de alta potência, quando a sua técnica ativa a esponja. Guarde isso pra daqui a pouco.
Algumas conclusões:
- Escolher pela velocidade de catálogo é quase inútil: o fabricante não divulga em qual espessura mediu, e a diferença entre os modelos é pequena e não acompanha nem a dureza. Útil seria um índice por espessura, algo como 1,7 mm: velocidade 7; 1,9 mm: 8,5; 2,1 mm: 10 (números só de exemplo). Aí, sim, faria sentido.
- Escolher pelo efeito de catálogo também: ele praticamente repete a dureza da esponja. Olhe a dureza e você já sabe quase tudo o que esse número diz.
- Escolher pelo controle informado é inútil: controle não é só função de velocidade, e é subjetivo.
- O “arco” de catálogo diz pouco sobre o seu jogo: depende da sua capacidade de gerar efeito, e até a madeira contribui. O que vale olhar é o ângulo de saída; já chego lá.
- Escolher a borracha do jogador famoso é totalmente inútil: o que ele faz com ela é fruto de uma técnica que você provavelmente ainda não desenvolveu, construída em anos de treino com aquele material. É correlação tomada por causa.
- Escolher porque o amigo “testou e gostou” é igualmente inútil. A maioria testa dando drive em ambiente controlado, quando deveria testar em jogo de verdade, e só depois de ajustar a memória muscular à borracha. Aí sim a opinião teria método.
Como escolher pelo método
Com a hipótese nula como premissa, como escolher uma borracha?
Método 1 — preceitos da Idade Média: arco, efeito, velocidade e controle de catálogo, descrição de marketing, moda, “testei e gostei”, “meu jogador predileto usa…”.
Método 2 — preceitos do Iluminismo: ângulo de saída, dureza da esponja, dureza total percebida, espessura da esponja, custo por mês de uso e, principalmente, o seu momento técnico.
Remédio bom não sai de testar mil substâncias ao acaso esperando que uma se revele sozinha. Sai de critério pra escolher o composto e de ajuste fino da dose. Com a borracha é igual: escolha pelo Método 2 e, escolhida, ajuste a sua técnica a ela.
Ângulo de saída (Throw Angle): borrachas que sobem muito a bola em efeito por cima cozinham baixo e, se a esponja for macia, costumam ser mais sensíveis ao spin do adversário (comem mais efeito): fica mais difícil receber saque pesado por baixo, mas mais fácil abrir bola cortada. Exemplos: Butterfly Tenergy 05 e Donic Bluefire, linha M. Borrachas que sobem pouco a bola cozinham mais alto, são menos sensíveis ao spin do adversário, e seus topspins chegam mais rápidos e profundos, dificultando o contra-ataque. Exemplos: Butterfly Tenergy 64, Donic Acuda Blue, linha P, e chinesas duras como a DHS Hurricane 3 National Blue Sponge (a linha do forehand do Ma Long).

Dureza da esponja: não existe tabela geral confiável; cada fabricante usa a sua régua, como vimos. Se você não tem técnica apurada, preparo físico de atleta e não treina todo dia, evite borrachas muito duras, como as de 44° da Butterfly, as de 52,5° ou mais na escala ESN ou uma DHS Hurricane 3 acima de 39°. Você provavelmente vai achar esses “canhões” pesados e lentos.
Isso explica também um fenômeno que confunde muita gente: uma borracha considerada “de dureza média” há duas décadas pode ser sentida, hoje, como macia, sem que a esponja tenha mudado um milímetro. A bola foi ficando maior e mais exigente. Em 2000, saiu de 38 mm e 2,5 g para 40 mm e 2,7 g. Em 2014, trocou o celuloide pelo plástico (a bola 40+), mais rígido; e, a partir de 2017, vieram as gerações de ABS que dominam hoje (conto essa história aqui). Uma bola maior, mais pesada e mais dura aciona mais a esponja e exige mais dela pra devolver a mesma resposta. Some a isso o fim da cola rápida, em 2008 (a história completa está aqui), e o mercado empurrou a régua pra cima: surgiram as esponjas ditas “dinâmicas”, mais firmes e reativas. O centro da tabela migrou. O que era “médio” antes, comparado ao catálogo de hoje, cai na faixa que chamamos de macia. Não é a borracha que ficou mais fraca; é a régua que mudou de lugar.
Um bom ponto de partida é uma dureza intermediária: 45° a 47,5° na escala ESN, 37° a 38° na DHS (exceto Gold Arc 5 e 8) e 36° a 38° na Butterfly.
Dureza total percebida: o que você sente na mão é a combinação de esponja e topsheet, e pode ser bem diferente da dureza nominal da esponja, além de ser tremendamente influenciada pela madeira. A linha Bluestorm, da Donic, tem um bom exemplo: a Z1 e a Z2 têm a mesma esponja de 47,5°, mas a Z1 parece mais dura por causa do topsheet. A DHS Gold Arc, mesmo com esponja considerada média (42,5° ou 47,5°), é relatada por muitos jogadores como “mais dura do que parece no papel”, efeito do topsheet firme, não tacky.
Espessura da esponja: na hora da compra, o fabricante costuma oferecer três escolhas: a cor (uma face preta e a outra colorida, como manda a regra), a dureza (nem todos oferecem mais de uma) e a espessura. Esta última pesa muito, e quase ninguém pensa nela. A física é simples: a esponja funciona como uma mola. Mais grossa, ela dá à bola mais espaço pra afundar e devolve mais energia, e a borracha fica mais rápida. Mais fina, a bola chega antes na madeira: a sensação fica mais firme e direta, a velocidade cai, mas o efeito não cai junto. Em proporção à velocidade, dá até mais efeito, e a bola cai mais na mesa. A grossa só leva vantagem no golpe muito forte, em que a fina chega ao fundo. No Brasil, virou regra comprar sempre a mais grossa, como se espessura fosse sinônimo de qualidade. Não é. Quando eu treinava sério, usava Max no forehand e 2,0 mm no backhand. E esponja grossa nem é novidade: nos anos 90 eu jogava com Yasaka Mark V 2,5 mm e cola rápida, que ainda inchava a esponja; certamente já chegava aos 2,7 mm da Zyre 03. Esse costume custa caro a todos: como o mercado brasileiro rejeita esponjas finas, os importadores evitam trazê-las, e quem precisaria delas fica sem opção.
Custo por mês de uso: a borracha mais cara do mercado não vai fazer você ganhar mais jogos, acredite! (Sim, sou um péssimo vendedor…) Como vimos nos números, o preço acompanha o nome da tecnologia, não o resultado. E tem uma conta que quase ninguém faz: a durabilidade. As chinesas tradicionais, como a DHS Hurricane 3 National Blue Sponge, estão entre as mais duráveis do mercado: esponja densa e topsheet resistente perdem grude e resposta bem mais devagar que a maioria das europeias e japonesas de última geração. Uma borracha mais barata, que ainda aguenta mais meses de treino puxado, sai muito mais barata por mês de uso que uma borracha “de tecnologia”, cara e de vida útil curta. Antes de comparar o preço de tabela, pergunte: quantos meses de treino cada opção realmente entrega?
Momento técnico: talvez a sugestão mais aplicável de todas. Não gosto da ideia de que o desempenho de um atleta é algo fixo: dizer que “fulano é melhor que beltrano” ignora que os dois estão em evolução constante. Na 360TT usamos um relatório dinâmico de avaliação, preenchido pelo atleta e pelo treinador, que confronta a percepção dos dois sobre o momento técnico atual. E essa referência muda conforme o atleta evolui: um topspin nota 8 contra atletas estaduais pode valer nota 3 num Pro Tour, porque a referência mudou. É a mesma lógica da régua de dureza que mudou de lugar. Em geral, com mais técnica e melhor físico, borrachas mais duras passam a ser mais bem aproveitadas.
O mundo mudou de ideia sobre as tacky
Defendo as borrachas chinesas e híbridas há anos, pela vantagem enorme que elas dão. São praticamente duas borrachas em uma: potência pela esponja dura, sensação de controle em bolas passivas pelo grude do topsheet e mais geração de spin. A China sempre usou borracha dura e tacky no forehand, e depois também no backhand (por que a elite chinesa leva a Hurricane 8 no backhand). Quando as híbridas começaram a aparecer, ficou claro que os fabricantes ocidentais tentavam unir a potência das borrachas europeias e japonesas à vantagem do topsheet tacky chinês.
Cheguei a postar sobre isso no Instagram da 360TT, em janeiro de 2022, quando ainda revendíamos outras marcas, antes de virar distribuidor oficial DHS. Os 5 motivos que apontei continuam valendo, agora com uma camada a mais de evidência, a adoção em massa pelos profissionais:
- a híbrida encurta a bola com mais facilidade (a aderência do topsheet “segura” a bola);
- dá mais efeito no saque, sem a bola espirrar, dificultando a recepção do adversário;
- dá mais sensação de controle em bolas passivas (cozinhada, bloqueio, recepção de saque), facilitando colocar a bola onde você quer;
- permite ataques com mais spin, compensando a perda de efeito das bolas de plástico sem perder velocidade, graças às esponjas dinâmicas;
- ajuda a refinar a técnica: com mais sensação de controle, você golpeia relaxado, não travado, e ainda ganha velocidade.

Só que, na época, as híbridas ainda ficavam bem aquém das chinesas puras, como a própria Hurricane 3 National Blue Sponge. E o mercado, no começo, não entendeu direito como elas funcionavam: classificou as híbridas como “lentas”, do mesmo jeito que sempre classificou as chinesas tradicionais. Na real, eram menos lentas que as chinesas puras, mas pareciam lentas pela razão que expliquei lá em cima: a falsa sensação de lentidão de quem não consegue aplicar energia suficiente numa esponja dura e vencer o grude do topsheet.
Quer comprovar? Coloque um protetor de borracha na sua chinesa “lenta” (ele isola o grude) e quique a bola. Depois me conta se ela morreu (como acontece sem o protetor) ou pulou alto.
Com a adaptação progressiva dos jogadores e a evolução do topsheet tacky, puxada principalmente pela alemã ESN, que fabrica pra praticamente todo mundo (Donic, Tibhar, Stiga, Andro, Joola, Gewo, Xiom, entre outras, incluindo a linha Gold Arc 5 e 8 da DHS), a vantagem que era quase exclusiva dos chineses começou a diminuir. Nunca se usou tanta borracha chinesa e híbrida no mundo como hoje.
Um bom exemplo “caseiro” pra nós, brasileiros, é o Hugo Calderano. Ele já tinha migrado pra borrachas híbridas havia algum tempo: notei isso no jogo dele antes de o mercado comentar, cheguei a falar disso nos grupos de WhatsApp de que participo, e a própria Xiom confirmou na mesma semana em que comentei. A trajetória das bolas passivas numa borracha tacky é bem característica, e o jogo passivo dele subiu muito: saque, recepção e por aí vai. Aumentou também o poder do contra-ataque. Em 2025 vieram os maiores resultados da carreira dele. Em 20 de abril, venceu a Copa do Mundo de Macau, passando por Tomokazu Harimoto nas quartas, Wang Chuqin na semifinal e Lin Shidong na final, e foi o primeiro campeão da Copa do Mundo de fora da Ásia e da Europa. Um mês depois, no Mundial de Doha, bateu Liang Jingkun na semifinal e só parou na final, diante do mesmo Wang Chuqin. Longe de mim reduzir qualquer jogador ao material que usa (sei bem quanto treino é preciso pra tirar proveito de qualquer ferramenta), mas as ferramentas estão, sem dúvida, mais capazes.

A China, por sua vez, vive um momento estranho. No ranking mundial masculino do início de outubro de 2026, o número 1 é um japonês de 19 anos, Sora Matsushima, e só dois chineses aparecem entre os dez primeiros: Wang Chuqin, em 4º, e Lin Shidong, em 9º. Dias depois, no China Smash, em Pequim, a final masculina foi entre Matsushima e Lin Yun-ju, de Taipé Chinesa, sem nenhum jogador da seleção chinesa. No feminino, o domínio continua: seis chinesas no top 10, e o título do mesmo China Smash ficou com Wang Manyu. Os sinais vinham de antes. Três dias depois do título do Calderano, em 23 de abril de 2025, Liu Guoliang deixou a presidência da Associação Chinesa de Tênis de Mesa, que comandava desde 2018 (oficialmente, pra facilitar a transição até Los Angeles 2028). Meses antes, Fan Zhendong, Chen Meng e Ma Long tinham saído do ranking mundial, em atrito com a regra da WTT que multa quem não disputa os torneios obrigatórios. E no Mundial por equipes de Londres, em 2026, a seleção masculina perdeu duas vezes na fase de grupos, pra Coreia do Sul e pra Suécia. Ainda se recuperou e foi campeã (contei essa virada aqui), mas com um sufoco que antes não existia. Nada disso se explica por um fator só. A minha hipótese, e é hipótese, sujeita ao mesmo método deste artigo, é que a adoção mundial das tacky e híbridas encurtou uma distância que a China usufruía quase sozinha.
Desde que o mundo adotou de verdade as borrachas chinesas e híbridas, o vetor de forças do tênis de mesa parece ter mudado, inclusive no feminino, e estamos todos reaprendendo a jogar. No fim das contas, é um caso real, em escala mundial, do mecanismo que defendo o artigo inteiro: uma hipótese (“chinesa e híbrida são lentas”) foi mantida por anos, até que a evidência acumulada a derrubou. E repare na diferença: não é “o campeão usa, então serve pra você”. É uma população inteira de jogadores, de todos os níveis, migrando ao longo de anos. Isso é evidência de que o material funciona pra quem aprende a usá-lo, não de que vai funcionar sozinho na sua mão. E, claro, entre as chinesas e híbridas há as mais amigáveis e permissivas e as de difícil manejo, muito duras. Escolha de acordo com o seu momento técnico.
Transparência: a 360TT é distribuidora oficial da DHS no Brasil. O que digo sobre ela vale o que vale qualquer afirmação de vendedor, e o ônus da prova é meu.
Se você quiser sentir isso na própria mão, a DHS, fabricante tradicional de borrachas tacky, tem hoje uma linha completa demais pra ignorar: do tacky raiz da DHS Hurricane 3 National Blue Sponge, passando pelas híbridas DHS Hurricane 3-50, DHS Skyline 3-60, DHS PF4-50 e DHS Hurricane 8-80, esta última num nível bem mais exigente, até o lado não tacky, europeu, feito na própria ESN: a linha DHS Gold Arc.
E aqui vai uma afirmação pessoal, quase uma nova hipótese em teste: a DHS PF4-50 atenderia tranquilamente uma enorme parcela dos mesatenistas brasileiros, do iniciante até o absoluto B nacional, talvez até o A. Mas repare bem: é exatamente o mesmo tipo de afirmação que fiz sobre as híbridas lá em 2022, ainda sem prova estatística nenhuma. Hipótese lançada, ainda não refutada. O tempo (e a sua própria mão) vai dizer.
DHS PF4-50Borracha híbrida com topsheet tacky e esponja #50 elástica e macia: efeito no saque e no drive, com controle.
Visitar a loja →Escolheu? Agora pare de trocar
Costumo dizer aos atletas que a técnica e a memória muscular se adaptam a um material novo em 60 a 90 dias de treino. Varia um pouco de jogador pra jogador, mas em geral é isso. Se a mudança no equipamento não for radical, o ajuste leva bem menos tempo, como quando você troca borrachas de 6 meses de uso pelas mesmas borrachas novas. O mesmo vale se trocar a borracha do forehand por uma com ângulo de saída diferente: pode incomodar hoje, mas em 60 a 90 dias você estará adaptado, ganhando de quem ganhava e perdendo pra quem perdia. Uma vez escolhido o material pela lógica, ganhar jogos não vai depender de marca ou modelo. Vai depender de você estar corretamente adaptado a ele.
“Não trocar” não significa nunca trocar. Substituir a borracha gasta pelo mesmo modelo é manutenção. Subir pra uma esponja mais dura quando a sua evolução técnica e física passa a pedir (e permitir) é ajuste de dose, feito com critério; é exatamente o que o “momento técnico” mede. O que não faz sentido é trocar por lançamento, por moda ou porque o amigo gostou.
Quer testar mesmo assim? Faça um ensaio de um paciente só
A medicina tem um nome pra isso: ensaio “N de 1”, com um paciente só, mas com controle.
- Defina antes o que é “melhor”: resultado em torneio, pontos no ranking, porcentagem de recepções que voltam na mesa. “Senti a bola mais viva” não vale.
- Anote como está hoje, com a borracha atual: ela é o seu grupo de controle.
- Mude uma coisa só. Borracha nova e madeira nova ao mesmo tempo = impossível saber quem fez o quê.
- Dê tempo: 60 a 90 dias de treino antes de julgar.
- Compare com o que você definiu no passo 1 e, se puder, peça ao seu treinador uma avaliação antes e depois.
Se a diferença não aparecer, a hipótese nula venceu: fique com a que você tinha e invista o dinheiro em treino.
Escolhido o composto por critério, e não por sorteio, trocar de remédio toda semana não é tratamento, é ansiedade.
Ajuste o protocolo: treine, refine a técnica e tire o máximo do material que você já tem. Bom treino a todos!
Agora quero ouvir você: qual foi a última borracha que você trocou, e por quê? Você consegue dizer, com algum dado, que ganhou mais jogos com ela? E, se você joga de PF4-50, conta aqui embaixo: a minha hipótese passa no seu teste? No blog antigo eu não conseguia responder comentário; aqui consigo. Então pode discordar, de preferência com evidência. O ônus da prova vale pra mim também.
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