Vamos falar sobre booster?

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No Brasileiro de 2020, no Rio de Janeiro, um jovem atleta me perguntou:
“Auad, o que é booster e pra que serve?”
Depois da explicação, ele me perguntou por que esse tipo de informação não era de conhecimento de todos os mesatenistas. Foi aí que resolvi escrever sobre o tema.
TL;DR: booster é um óleo que expande a esponja e deixa a borracha mais rápida. As borrachas europeias e japonesas já saem de fábrica com booster, e a regra da ITTF só exige no máximo 4 mm de espessura e nenhum VOC. Em testes de 2019, a ITTF flagrou atletas que lixavam a madeira para esconder borrachas com até 4,18mm: todo booster aumenta a espessura, e mais espessura dá até 10% de performance. Mas o contrário também é desigualdade: borracha que perdeu o booster de fábrica joga menos. Dentro da regra, o booster só traz benefícios; veja de quanto em quanto tempo repor.
O que é booster e como usar
Definição de booster: é um óleo que, quando aplicado da forma correta e adequada na esponja (e/ou no top sheet, mas esse é um assunto pra outro momento…) de uma borracha de tênis de mesa, expande a mesma, tornando-a mais responsiva. Em outras palavras, deixando-a mais rápida.
Definição de óleo: são substâncias no estado líquido viscoso nas condições ambientais. Os óleos são hidrofóbicos (não se misturam com água, e por isso não existe cola à base d’água com booster) e lipofílicos (formam mistura homogênea com outros óleos). Podem ter origem vegetal, animal, mineral ou sintética. No mercado mundial de tênis de mesa, encontramos basicamente dois tipos de booster: os de base mineral e os de base vegetal.
Agora que você já sabe o que é booster, vamos entender a forma de uso. O booster deve ser aplicado na esponja da borracha (pode ser de pino também) e é necessário aguardá-lo agir. Normalmente uma camada de booster leva de 12h a 24h para agir, dependendo de alguns fatores como: viscosidade do booster, origem do booster (vegetal, mineral etc.), tipo da esponja (porosa ou não) e dureza da esponja. A temperatura ambiente e a umidade podem modificar sutilmente o tempo de ação, mas considero esse tempo desprezível.
O booster faz com que a esponja “cresça” pra todos os lados, e como o top sheet não cresce junto, a borracha envergue para o lado dele.
Bom, sendo bem simplista, se pensássemos somente em usar booster em borrachas novas, o assunto terminaria aqui e a única utilidade seria deixar a borracha mais rápida (um pouco mais macia e lançando a bola mais alta). Mas não é bem assim…
O que a ITTF diz sobre booster
A ITTF diz no seu livro de regras: “As borrachas devem ser usadas sem qualquer tratamento físico, químico ou outros.” (ITTF Handbook, rule 2.4.7). Isso torna o assunto polêmico, mas na prática permite o uso de qualquer borracha constante na LARC que não exceda espessura de 4mm (com a película de cola) e não libere VOC.
A ITTF não se preocupa com o uso de booster, pois cercou tudo nas duas regras que citei acima: limite de 4mm de espessura e não liberar VOC. Muitas borrachas já vêm quase nesse limite máximo de 4mm, não deixando margem pra aplicação de muito booster, salvo as que não são tensionadas, como as chinesas.
O booster de fábrica: o que ninguém conta
O que a ITTF não diz, nem os fabricantes, é que as borrachas europeias e japonesas tensionadas, lançadas a partir de 2007, vêm tratadas com booster de fábrica. Umas mais e outras menos, mas todas têm. Isso muda toda nossa perspectiva de uso do booster.
O booster na esponja, seja ele de fábrica ou aplicado pelo atleta, não dura por toda a vida da borracha. Ele é consumido com o uso (impacto com a bola) e, quanto mais forte for seu golpe, mais rápido ele é consumido. Apesar de sempre falarmos de durabilidade do booster em dias ou meses, o correto seria em horas de uso. Na minha prática, baseando-me nas borrachas que vêm com mais booster de fábrica, ele é totalmente consumido entre 40h e 50h de uso no máximo, em algumas bem antes.
No Brasil, devido ao dólar alto e aos absurdos impostos de importação, as borrachas são bem caras e acabamos usando a mesma borracha por meses, às vezes até por um ano ou mais. Com isso, depois de algum tempo, todo o booster de fábrica é consumido e a borracha já não possui mais a “tensão” de nova, perdendo boa parte do seu desempenho. Quanto mais booster a borracha recebe na fábrica, mais ela vai perder. Obs.: as borrachas fabricadas no Japão são as que geralmente recebem menos booster na fábrica e, consequentemente, perdem menos desempenho após o consumo dele.
Você pode comprovar que as borrachas recebem booster na fábrica pelo cheiro que algumas exalam quando novas e também pelo quanto elas encolhem em relação à madeira ao serem descoladas após algum tempo de uso.
Fazendo um paralelo com uma bicicleta, temos uma roda sólida, geralmente de metal, e um pneu de borracha. Para esse pneu funcionar adequadamente, deve ser inflado com uma determinada quantidade de ar. Quando um pneu se esvazia, trocamos o pneu ou simplesmente repomos o ar perdido? Pois é: pegamos uma bomba e o enchemos novamente, ou levamos a bicicleta num posto de gasolina e calibramos o pneu com a pressão adequada ao uso. Trazendo o exemplo para o tênis de mesa, a raquete é a roda e a borracha é o pneu. Quando o ar/booster da borracha “esvazia”, podemos repor o mesmo para devolver a tensão/velocidade de fábrica a essa borracha. Pra mim, esse é o melhor uso do booster e não tem porque ser “ilegal”. Muito pelo contrário, deveria ser estimulado por ser uma prática que vai permitir maior vida útil da borracha e, consequentemente, menor descarte de lixo no planeta.
O teste da ITTF em 2019
Em dezembro de 2020, a ITTF fez um webinar no YouTube sobre equipamentos de tênis de mesa. Um dos temas foi o uso de booster, que eles chamam de After Treatments.
Em 2019, após os abertos da Croácia e da Polônia e a copa do mundo de equipes em Tokyo, eles selecionaram alguns atletas para descolar suas borrachas, sem consequência para o atleta em caso de não conformidade. O próprio atleta fazia a descolagem, sempre após o último jogo do atleta no torneio. A escolha do atleta foi baseada no teste de raquete, onde o árbitro avaliador ficava com dúvidas do resultado.
Curiosamente, flagraram vários atletas adulterando suas madeiras permitindo usar mais booster na borracha, consequentemente fraudando o teste de espessura.
Importante
Importante esclarecer que todo booster aumenta a espessura da borracha, a borracha cresce em todos os lados, também em espessura. E se tem mais espessura, ganha performance. É de conhecimento do meio mesatenistico que uma borracha com esponja 2.2mm é mais rápida que uma 2.0mm, que é mais rápida que uma 1.8mm e assim sucessivamente.
As evidências encontradas nas raquetes
Encontraram evidências nas raquetes como:
- Selante na proximidade do cabo.
- Dente na borracha onde o equipamento de medição apoia.
- Medições muito baixas de espessura como 3,58mm em raquete de atletas de nível mundial.
- Divergência de espessura medida com lente de aumento.
- Lâmina superior da madeira lixada no ponto de apoio do equipamento de medição.
- Aparência do top sheet da borracha evidenciando o uso de booster.
Nas medições após a desmontagem, encontraram borrachas com até 4,18mm de espessura. Abaixo o equipamento de medição usado pra medir a espessura das borrachas após a desmontagem:

Esse incremento de espessura entrega até 10% a mais de performance em relação a uma borracha dentro do limite de 4mm. Essas raquetes passaram no teste de espessura normal com a raquete montada, pois as madeiras foram severamente preparadas pra isso.
Abaixo algumas imagens:






Pelas imagens, os atletas flagrados usavam borracha chinesa ou eram chineses. Como a lista de atletas não foi divulgada, não é possível saber exatamente.
No início desses testes, houveram discussões calorosas, mas após explicarem que o objetivo era proteger os jogadores honestos dos trapaceiros, as reações foram positivas.
O que a ITTF concluiu
Após esses testes, perceberam que a vantagem de performance para o atleta que usasse borrachas com mais de 4mm era enorme e a igualdade entre os jogadores não seria garantida dessa forma. Os jogadores ainda sugeriram um aumento no limite de espessura, sinal que ainda estão buscando performance pelas borrachas e que apenas trocar por uma madeira mais rápida não resolveria nesse caso.
E quando o booster de fábrica acaba?
Esse foi um caso de trapaça, para obter melhor performance e é pra isso que existe o controle de raquetes, mas vamos inverter a situação, uma borracha com a performance diminuída pelo fato que seu booster de fábrica já foi consumido, também é um fator de desigualdade. Nesse caso, com o objetivo de devolver a tensão de fábrica, o booster deveria ser amplamente usado, ainda mais se as seguintes condições forem atendidas:
- A borracha Euro/Japa foi usada por pelo menos umas 40h e ainda tem aderência no top sheet aproveitável.
- O booster não faz mal a saúde, portanto a raquete passa nos testes se estiver dentro da espessura limite de 4mm.
- O booster não contem VOC, portanto a raquete passa nos testes.
Se a borracha for chinesa e não tiver esponja porosa como exemplo a GoldArc(feita na Alemanha), ela foi desenvolvida para ser usada com booster e isso só não é dito abertamente por questões comerciais, com isso, use desde nova, desde que não ultrapasse o limite de 4mm e esse booster não contenha VOC.
Benefícios do uso do booster
- É ecologicamente correto, pois as borrachas vão durar mais e serão muito menos descartadas na natureza.
- A sua borracha usada retorna a tensão/performance de fábrica por uma ou mais vezes até a aderência decair e ser necessário a troca. Com isso jogar com uma borracha usada continua prazeroso por muito mais tempo, como se ela fosse nova.
- O potencial de efeito/velocidade da borracha é mantido por muito mais tempo.
- Se você comprou uma borracha usada e por ter encolhido ela não coube na sua madeira, o booster pode voltá-la ao tamanho original. Após usar booster numa borracha que encolheu, é normal ela chegar a crescer 0,5cm ou até mais em toda sua circunferência.
- Se você não participa de torneios oficiais, pode turbinar sua raquete e deixa-la mais agradável e rápida pra jogar e se divertir.
- Você sente melhor a bola numa borracha que teve o booster de fábrica resposto. O feeling fica espetacular.
- O som da borracha fica muito melhor, lembrando um pouco o som da cola rápida.
- A borracha sobe mais a bola, o que é ótimo pra atacar.
Dicas de uso
Agora que já devo ter te convencido que usar booster não é errado, pelo contrário, deveria ser estimulado, vou dar algumas dicas de uso. Se você treina todo dia, reponha o booster a cada 30 dias, caso contrário, a cada 2 meses. Dê preferência a um booster que seja muito eficiente, que ofereça controle da quantidade aplicada, não faça mal a saúde nem tenha cheiro, tenha PH fisiológico (não faz mal à pele) e tenha suporte técnico do fabricante. O nosso SpeedUp 360 oferece tudo isso, além de manual de instruções via QR Code, esponja aplicadora e meu suporte técnico regular.
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Visitar a loja →Ah, e booster também pode (deve?) ser usado no top sheet, mas é assunto pra outro momento.
Agora quero ouvir você: você usa booster? De quanto em quanto tempo repõe? Conta aqui nos comentários.
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